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19/7/2013

18:43

Apontamentos da Páscoa - Serra abaixo Serra acima - Alexandre de Resende

 

Feliz Grilo

Apontamentos da Páscoa.

Serra abaixo e serra acima.
Por- Alexandre de Resende


I
Serra abaixo chamávamos nós à descida que se fazia na Serra da Chela, ali para o Sul de Angola, no distrito da Huila, onde o desnível se revelava sempre abruptamente; e isto porque nos encontrávamos cá no topo, a mais de mil metros da cota próxima, pois de contrário, a designação mais correcta de “ Serra Acima”, pois foi serra acima que os pioneiros, tendo como esteio a Angra do Negro, mais tarde designada por Moçâmedes, haviam de escalar os gigantescos degraus, nos seus misteres de colonização (portuguesa e bem diferente das outras colonizações), de ocupação militar ( o gentio era incitado à violência pela inveja dos outros povos), de evangelização (não só com a Cruz, mas também com os corações) e de comercialização (o que quer dizer que se o comerciante, por vezes, roubou o preto, o não deixou de o fazer ao branco; mas foi ele que de sobremaneira saciou a fome em períodos de crise)…
Mas deixemos a História, que ela sem partidarismos, subterfúgios e deturpações, já nos foi narrada, consta dos seus anais, e ainda, por certo mais terá para nos contar… (Páscoa de 1974).

II
Em férias de Páscoa, estávamos já no arraial de Caionda, local onde Capelo e Ivens fizeram a primeira paragem após a difícil e penosa escalada, já no cimo da serra. O nosso percurso vai ser feito ao invés. Munidos de mochila às costas, cantil à cinta e arma ao ombro, três jovens, ainda estudantes daquela que foi a radiosa Escola do Tchivinguiro, propõem-se descer a Chela com um objectivo: Uma caçada aos “cahines” que abundavam lá mais para baixo, já no baixio arenoso, a fugir às abas da serra, a alongar-se para o Bruco e Capangombe, na região do Bumbo.
São quatro e meia da tarde e o espectáculo que ante os nossos olhos se depara é deslumbrante, e por maravilhoso, inolvidável. O sol não tarda a declinar e já vai pondo sombras negras nas profundezas dos abismos, que à primeira vista nos parecem impossíveis que se consigam alcançar; pinta de oiro e verde as cristas das montanhas mais altas, e vai doirar, lá mais ao fundo, as areias planas a confinar com o vizinho deserto, onde, um teimoso fiozito de água serpenteia feito de prata, cobre e oiro; esbate em aguarela os azuis e os violetas dos montes ao longe; depois, à medida que o ocaso se aproxima o espectáculo torna-se deslumbrante e ouço, em mim o poema de meu pai:

“Começa lá em baixo
na aridez.
Assenta nas areias do deserto.

Lá longe o mar, rés-vés,
e cá no alto, o Céu,
mais perto.

Faldas e sopés.
Abismos fundos.
Perdidos mundos
para lá de outros mundos
que não sei…

Luz a jorros,
nuvens em castelo,
pinceladas de cor,
tons, amarelo,
verde, rubro,
azul, violeta,
longes sem fim…

Quem foi o pintor?
Onde está a paleta?
Os pincéis?
Quem pintou assim?!

Um turbilhão de harmonias,
de cores, de sons,
de tons,
de eufonias.

E as cores falam, gritam,
palpitam,
têm vida!

Bendita seja a subida
Da Serra Mais Alta!” (1)

(1) “Serra Mais Alta” de Manuel de Resende
“cahine”- Bambi: Cephalophus mergens

 



III


Valeu a pena atrasar-mos a jornada. Agora encetamos a descida com a pouca claridade nos vales mais fundos e com a escuridão da mata quase fechada. Vamos a pique. Primeiro pela picada atulhada de pedregulhos, depois pelos atalhos, onde as lianas nos dificultam a passagem. Tudo isto ao som da passarada que se despede de mais um dia com sons melodiosos aos quais se junta o canto dos riachos e ribeirinhos, que como nós também se despenham pelas fragas. A contrastar ouve-se o berro rouco do macaco-cão a perder-se pelas montanhas. Passámos o Chão da Chela ao lusco-fusco, e ali, mesmo aquela hora, não deixamos de nos sentir esmagados pelas paredes do colossal corredor que formam as montanhas gigantescas, que dum e doutro lado se levantam, abruptas e negras. É apenas por uma nesga de céu que vislumbramos o piscar das primeiras estrelas.
Seguimos em frente, mas desta vez em descida suave em direcção ao Bruco.
Já era noite fechada quando lá chegámos. Luzes só a das estrelas e a do “Petromax” que iluminava o interior da casa da fazenda.
O encarregado da fazenda era um aluno tirocinante que orientava os trabalhos daquela propriedade pertença da Escola Agrícola, mas que não deixava de ser também um ferrenho amador de caçadas, e assim que nos viu veio radiante e eufórico ao nosso encontro, propondo desde logo que arrancássemos pois conhecia um local próximo de Capangombe que mais parecia um “sambo” de “cahines”. Dissemos-lhe que vínhamos cansados e cheios de larica, o que levou o nosso amigo, um tanto contristado pela demora, a dar ordem ao cozinheiro que deitasse abaixo o pescoço a três galináceos. Refeitos o fôlego e as energias lá fomos mais tarde, em direcção ao tal local, agora acompanhados de mais uma escopeta, uma velha “maneliquer”que só fazia fogo quando as balas lhe davam na gana… O nosso anfitrião, munido de farolim de testa varria o seu “sítio”, o tal apelidado de “sambo”, que não era mais do que uma clareira entre a mata pouco fechada de “mutiatis” e de “mucandos”.
Realmente não tardou muito e foi o farolinador quem primeiro iria fazer o gosto ao dedo, pois estava no seu direito… Especado o “cahine”, suspensa em nós a respiração e eis que se ouve apenas o “plique” da agulha por sobre o fulminante… A pedido dele faço a estreia com a minha “ponto 22” num tiro e queda. Daqui em diante, foi um ver se te avias. Todos nos estreámos e bisámos. Oito “cahines” que preparados mais tarde à maneira de cabrito assado à angolana fizeram o regalo, não só nosso, como de vários funcionários a quem presenteámos como brinde de Páscoa. Bela caçada? Sim para aqueles tempos, foi. Hoje, chamar-nos-iam assassinos. Caçar ao farolim, querem lá ver!… Mas também é preciso ver que naqueles recuados tempos, talhos por ali não havia, e se a caçada não era tão desportiva, não deixava de ter o seu aspecto de necessidade quase imprescindível. Era como um juntar o útil ao agradável. Também hoje já não há necessidade de caçar com armas. É mais desportivo e mais simpático “ caçar-se” com… a máquina fotográfica! (Páscoa de 1975).


 

Continuação - IV

Quem havia de dizer que quem rabisca estas saudosas “façanhas” conviveu, trabalhou, acamaradou e alicerçou uma amizade que ainda hoje perdura, e já lá vai quase uma trintena bem puxada, com aquele que é o director do jornal onde isto se publica? Mas foi, sem dúvida, pela Páscoa de 1985 que tivemos a felicidade de nos reencontrarmos. E da troca de correspondência que mantemos foi-me dado a recordar algo que já não me lembrava. Numa das cartas releio a seguinte passagem:
… “ e já era tarde. Havia escurecido, depois de mais um belo pôr do Sol. Não se ouvia barulho; tampouco o “ Dingo” se apercebeu que o velho “ Land-Rover” estava chegando.
Foi neste compasso de espera, entre o virá e não chega, que fizeste uns versos, sobre o meu aniversário e que guardei no escritório da Fazenda da Cela. Como tudo, lá ficaram. E quanto gostaria de os ter em meu poder.
Foi sem barulho que o Ermida chegou trazendo o rancho e os dois garrafões de tinto do Caholo. E mais umas coisas além do rancho normal.Com dificuldades mas chegou no velho “jeep” que só o Vilares com as suas mestrias mantinha em funcionamento.
Não veio o Eng.º Vinício que me havia prometido vir beber um caneco connosco.
Festa rija. Sim, porque não é todos os dias que se fazem 20 anos…”
Quis reconstruir o poema que um dia fiz, mas os poemas são como os filhos jamais nascem iguais. Ei-lo. Nele permanece a ideia original mas quanto às rimas não poderei dizer o mesmo. Vai com dedicatória de Páscoa Feliz a todos os leitores e ao Feliz, nesta Páscoa de 1987:

Montes e vales.
Abismos profundos.
Silêncio.
- Não falem
das coisas do mundo.
O mundo é lá fora
deixai-o entretido
com as guerras de agora.
Quanto risonha foi a madrugada!
O Sol sorriu e até nos fez caretas.
Cantando, delirou a passarada,
e dançaram as flores com as borboletas.

Dormiu, ao meio-dia, a Natureza,
sob o pino do Sol tão escaldante.
Tudo ao redor o silêncio pesa
e há uma reza no piar de ave distante.

E quando o Sol morreu para além do monte,
como um Cristo, em sangue, agonizante,
baixinho, ouviu-se o choro de uma fonte.
Regressou triste o gado caminhante…

Veio a noite, crepitam as fogueiras.
Sobe o luar ao som da batucada
Por entre a mata brincam bem ligeiras
corças com leões até de madrugada…

E assim,
eu nesta hora
de silêncio
de sonho profundo
e poesia
deitei fora
o pôdre deste mundo!
- Lá vem o dia…

Alexandre de Resende

 

 

Comentários

 

António Leite Saraiva 

No sopé de duas gigantescas montanhas "Lourenço e Gusmão" fica o Bruco, onde além dos passeios também eramos destacados a estagiar algumas semanas naquele prodigioso local. Ai iniciei a doma do celebre FAKIR. Numa dessas expedições ao Bruco, 14 ou 15 colegas já não me lembro, o regresso pelo menos até ao Chão da Chela (local onde havia uma magnifica colecção de café arábica) o precurso era feito montados em BURROS entre eles o famoso burro branco e o orelha cortada. O nosso saudoso colega ANTÓNIO PENA MONTEIRO, para poder disputar a corrida de regresso a casa nas primeiras linhas da grelha, deu uma "GASOSA" gorgeta ao pastor para lhe arranjar o melhor burro da manada. Iniciada a viagem debaixo da grande mulemba, ai vão os burros todos a galope pela recta em direcção ao Chão da Chela, só que o nosso amigo Pena que disputava a grande maratona logo na primeira curva onde iniciava o cafezal o "ORELHA CORTADA" penetrou pelo cafezal dentro apeando o seu cavaleiro e assim regressou as suas origens.

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